• Benedetta

    Benedetta

    Verhoeven lida muito bem com as visões da protagonista na primeira metade do filme. Enquanto que boa parte das cenas cotidianas possuem uma polidez nas imagens, até mesmo uma sobriedade que dialoga com uma ideia mais clichê de filme de arte, as visões assumem uma identidade “cafona” e até ingênua que parece ser fiel aos devaneios de Benedetta.

    O Cristo sem sexo reforça tanto uma ideia de castidade implícita, como também um dado prático (uma freira que simplesmente nem conheceria…

  • Last Night in Soho

    Last Night in Soho

    Praticamente um Malignant versão Polanski hipster… que deu certo.

    Enquanto o James Wan atira pra todos os lados e sai tanto com momentos inspiradores como também com momentos mais aleatórios, o Wright consegue propor um exercício de gênero bem mais regular.

    É um filme que ao mesmo tempo que demonstra uma autoconsciência e um fetiche pelo passado - propõe até mesmo uma atualização estilística bem impositiva disso - também conserva uma visão ingênua de certas convenções do terror e do…

  • Titane

    Titane

    Remete aos mesmos problemas do RAW: uma abordagem dramática que funciona quando, ironicamente, cai em uma estrutura mais tradicional e é uma desgraça quando tenta inserir alguma bizarrice.

    Se no RAW a única coisa que chegava a funcionar era a parte mais clichê do coming of age (as relações pessoais da protagonista com o seu meio) enquanto que o canibalismo era só um pretexto pro filme ficar “forte”, aqui a única coisa que se salva (em partes…) é a relação…

  • Dune

    Dune

    Gosto de algumas escolhas visuais. Ou, pelo menos, toda essa “esterilização da imagem”, dessa vez, faz algum sentido dramático. O modo como o Villeneuve torna todas as imagens muito homogêneas e monocromáticas cria uma sensação de suspensão no tempo que funciona em certos aspectos.

    A montagem malickiana bem pontual também tem seus momentos. Não se utiliza do recurso não linear de modo exagerado e marca apenas alguns instantes específicos.

    Muito do que envolve cenas internas e um confronto mais íntimo…

  • The Card Counter

    The Card Counter

    É um filme que fica entre o American Gigolo e o First Reformed. Além das referências formais e temáticas ao Robert Bresson que os dois compartilham (aqui ele novamente refaz o plano final de Pickpocket como em American Gigolo), o trabalho se coloca no meio-termo entre a radicalidade do filme de 2017 e a relação mais próxima com o cinema de gênero do filme de 1980.

    Isso cria uma dinâmica narrativa interessante pelo fato de tornar a obra relativamente imprevisível,…

  • Cry Macho

    Cry Macho

    Desde o início o filme assume que irá “funcionar” devido a um legado que a imagem do Clint Eastwood carrega. É uma dependência que lida bem com a reflexão do envelhecimento daquela figura e pretensamente daquelas ideias (rola até uma problematização da macheza), mas que me parece longe de sustentar um filme inteiro.

    Uma vez que essas ideias são estabelecidas, o longa soa cada vez mais como um exercício de cinefilia que possui prazer em simplesmente contemplar a imagem do…

  • Malignant

    Malignant

    É meio que um Insidious de alto orçamento. Tanto pela forma que aborda as cenas internas na casa e isola as “set pieces” de modo geral, por esse trânsito dos personagens entre dimensões reais e fantasiosas, como também pelo exercício assumido com o gênero.

    O que acaba tendo pontos positivos (o Wan consegue elaborar as cenas de modo muito rico e usa todos os efeitos que tem direito com um frescor pouco visto no cinema de terror mainstream) e pontos…

  • Candyman

    Candyman

    This review may contain spoilers. I can handle the truth.

    O filme se aproveita muito bem desses espaços conceituais (galeria de arte, apartamentos hipster, ateliê) pra lidar de modo mais direto com as aparições. Mesmo que a questão dos espelhos torne as aparições um pouco mais ambíguas, a diretora usa muito bem o seu senso de escala pra evidenciar as ações em cena.

    Isso funciona tanto como uma ironia a esse ambiente da arte conceitual, que já possui uma marca muito impessoal por estar sempre “limpo” (o sangue na galeria…

  • The Green Knight

    The Green Knight

    É um filme que está mais interessado em aspectos da percepção daquele imaginário, está mais interessado no modo como o protagonista se relaciona com aquele mundo fantasioso através dos seus sentidos, do que exatamente em definir uma estrutura narrativa mais exata.

    Mesmo algumas mudanças mais pontuais nos acontecimentos do poema, escolhas mais específicas de casting (como os dois papéis da Alicia Vikander) e até alguns “furos” (o reaparecimento do machado) são usados para reforçar esse aspecto e até mesmo confundir…

  • Annette

    Annette

    ★★★★½

    This review may contain spoilers. I can handle the truth.

    Existe uma busca por um lado mais essencial do espetáculo que é bem característica do Carax. Principalmente em como não existem momentos banais ou cotidianos na vida dos personagens, já que tudo é um pequeno acontecimento operístico.

    O mais interessante, no caso do Annette, é como ele isola isso ainda mais em elementos pontuais e minimalistas que constantemente remetem a um palco. Mesmo os ambientes que, em teoria, são locações, soam como um palco ou algo mais artificial.

    Dentro dessa…

  • Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time

    Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time

    This review may contain spoilers. I can handle the truth.

    -

    You should live here with us from now on.

    A primeira parte na aldeia é das melhores coisas produzidas no cinema nos últimos 30 anos. Consegue evidenciar um aspecto divino em ações cotidianas “ordinárias” como poucos diretores.

    Usa muito bem a figura da Rei pra mostrar um cotidiano com elementos comuns e cíclicos (trabalho, família, descanso, comida), mas que justamente nessa repetição e dedicação comunitária expressa uma perspectiva sagrada da vida acontecendo.

    Mesmo a forma como a Rei deseja…

  • Evangelion: 3.0 You Can (Not) Redo

    Evangelion: 3.0 You Can (Not) Redo

    I'm another child like you,
    burdened by fate.

    Funciona menos como um substituto do END OF EVANGELION e mais como uma possível continuação alternativa. Enquanto o END OF EVANGELION é um relato épico do terceiro impacto, esse é um relato reflexivo.

    Se lá tudo era grandioso e abstrato, aqui tudo é mais sereno. É um filme mais sobre o resultado da destruição do que sobre a destruição. E de alguma forma é um filme que lida com o aspecto “burocrático”…