Malcolm & Marie

Malcolm & Marie

Ser insuportável é o fato que atesta aos pontos positivos e aos negativos de Malcolm e Marie. Pois capturar o diálogo entre um casal, de forma tão teatral, mostra-se como a oportunidade onde muitos escritores teriam em deleitar os próprios ouvidos com suas palavras. Algo que, aqui, não acontece, visto que os diálogos já se iniciam na tonalidade com que seguirão pelo resto do filme: Malcolm é maníaco em sua fala agressiva, apaixonado por si mesmo e pela esposa, ao mesmo tempo que raivoso dos mesmos, e dos críticos; enquanto Marie é rancorosa, quieta e, mesmo que manipulativa, mais equilibrada e "confortável" acerca de seu miserável estado mental e relacionamento desequilibrado. Nenhum dos dois cede à razão oposta em troca de paz, e isso torna a discussão em uma "refutação seguida de baixaria e pouco fair play" constante, o que representa com fidelidade um relacionamento destroçado e sem chances de se reerguer - onde os cônjuges vão descer até o fundo para descobrirem que o problema de ambos se encontra na origem daquele relacionamento; quando chegarem, porém, já se repelem demasiadamente para chegarem em um consenso.
Essa insistência é realista, não é cinematográfica - o que não é um demérito, só estou citando o próprio Malcolm. Afinal, este é um dos paralelos meio metalinguisticos que podemos traçar entre Malcolm e Levinson, e que é (ou pretende ser) rapidamente refutado pelo próprio diretor ao insistir que filmes não devem ser políticos, autobiográficos, realistas ou conceberem uma idéia lógica quanto o que está em tela e a vivência do(a) cineasta. Filmes devem ser universais, diz Malcolm (que não é Levinson, mas também não representa um cineasta preto), personagem de um filme que toca em um tema universal (relacionamentos) dentro de um universo extremamente específico, onde as metáforas relacionadas a este universo podem entregar um paralelo à relação ali construída ou podem expurgar uma raiva pessoal de uma indústria, e um punhado de críticos, que não entendem a arte de um artista genial - mesmo reconhecendo que é genial.
E é válido o ponto que o diretor/roteirista faz sobre a representatividade de um diretor preto, mas é uma muleta usada de maneira superficial para que Levinson encontre um subtexto social do porquê seus filmes não são compreendidos: porque ele é um cineasta não-político, fazendo um filme político; mas também é um cineasta popular, adorado por críticos quando realiza uma tour de force poética e pessoal - o que ele não acredita ser necessário, e berra por cinco minutos no ouvido da pobre Marie, mesmo que tenha citado todos os pequenos pontos que fazem daquele filme um trabalho pessoal - o que o torna um prostituto para a projeção da culpa branca em cima de um cineasta preto. Mesmo que Levinson seja branco, o que não justifica o fato de Malcolm ser bastante superficial quando toca em certos assuntos ("Angela Davis discordaria de você", afirma Marie) mas não me impede de pensar que a maior projeção ocorrendo não é aquela dos críticos do hipotético filme de Malcolm, mas do próprio Levinson ao escrever um personagem preto para expurgar os sentimentos à flor da pele de um artista criativo e mais inteligente que a indústria. Pois não é difícil apontar as contradições desta indústria, fazê-lo com embasamento, porém, demanda mais do que meia dúzia de exemplos jogados em meio a um surto insuportável por parte de Malcolm (e, só uma adendo, mas vejo em John David Washington um timing cômico interessante, já observado em Tenet e em algumas cenas aqui: como na busca pelo cartão de crédito em um momento de "tensão", onde uma simples mudança na entonação gritada do personagem oferece um contraste hilário, ou a reação à inesperada encenação de Marie).
E se cito pouco Marie é porque a personagem cai em poucas contradições neste jogo egocêntrico entre Malcolm e Levinson, trazendo momentos de reflexão genuína acerca dos direitos à própria história e à maneira com que será contada - visto que a lembrança não terá o toque cinematográfico, não será a tour de force que o artista lapidou e diluiu em meio à própria trajetória. Marie oferece uma jaula para a criatura descontrolada a frente dela, e quanto menos consegue atraí-la mais se fecha na própria jaula. A personagem dá liga às metáforas metalinguisticas, visto que a relação e os conflitos de ambos vêm de um descontentamento da própria acerca da história contada de um ponto de vista limitado com a própria representação.
O que me fez pensar que Malcolm e Marie é uma ironia, uma sátira, ou qualquer adjetivo que definisse o comportamento cartunesco e romantizado de uma idéia de gênio incompreendido, há muito ultrapassada. Mas creio que Levinson se leva muito à sério e cai em contradição quanto a visão dele e de Malcolm, enquanto Marie parece tentar trazer os dois para a instabilidade que causam ao focarem na arte enquanto vida e na vida enquanto arte. E esse jogo cênico balança para os dois lados, se justifica diversas vezes e não encontra um equilíbrio que não seja estimulado por dois protagonistas que gostam de viver em desequilíbrio.