The Secret Diary of an Exchange Student

The Secret Diary of an Exchange Student ★★★★½

Na literatura cabo-verdiana, o poeta Jorge Barbosa dizia que o sonho do povo de cabo verde era a viagem que estava dentro de cada um. Esse desespero de querer partir e ter que ficar. Esse vislumbre de não ser subalterno perante a sua colônia é transmutado para os tempos neoliberais atuais em que sonho do estrangeiro ainda é uma forma de fuga do terceiro mundo.
Barbara (interpretada com excelência por Larissa Manoela que lembra a ingenuidade e leveza de Sophia Loren nos filmes de De Sica) tem o sonho ir para o exterior. Em contra ponto sua melhor amiga Talia (a elegante e contida Thati Lopes, nossa futura Catherine Deneuve) que é anti-imperialista e ao mesmo tempo defensora incansável do Nióbio assim como Bolsonaro (e provavelmente filiada do PDT, fica esse subtexto propositalmente não desenvolvido) e que jamais quer pisar em terras Yankees (só se for pra humilhar a amiguinha que roubou a vaga dela no free shop).
Mas nós não dominamos nosso destino e após uma sucessão acontecimentos inexplicáveis elas decidem virar Au Pair (era possível decidir isso em 2 minutos de roteiro, mas a construção lenta natulistica, um quase Kiarostami que nos obriga até ver uma senhora infartar aleatoriamente só pra apresentar um personagem) nos presenteia com belíssimas meia hora de apresentação.

Não obstante, as aventuras mal começaram.

Na tradição dos melodramas subversivos de Douglas Sirk mesclada com toques de comédias costumes à lá Oscar Wilde, a sátira do materialismo e do American Dream (senti falta de Larissa Manoela cantando "Blue Velvet") toma conta da tela. A anti-americana fã de Nióbio se torna americanizada (seria isso uma crítica centrão?!) e a que sonha em ficar no país percebe que seu país... É O MUNDO. Larissa Manoela se auto-metaforiza mostrando que o Brasil é pequeno demais pra ela, os Estados Unidos é pequeno demais pra ela também, mas o mundo inteiro... Isso à ela pertence.

Diferente de um filme que concorreu Gramado este ano, Bruno Garotti demonstra que o rebuceteio sem medo que as relações amorosas Nelson Rodriguiana ainda são atuais e não precisa ser repensando e nem recriminadas. Apenas observadas e realizadas. É ancestral e é contemporâneo. Só as máscaras mudaram. A ponto de chegarmos ao um clímax que é uma mistura "mãe!", o fim de "Amor a Toda Prova" e ao curta "La colère" de Sylvain Dhomme de "Os Sete Pecados Capitais" (1961).

É uma carta de amor à vida, à liberdade, ao cinema, à não homogeneização do Feminino. Um cinema de emancipação do corpo da mulher. Cinema-Mulher. Cinema-Larissa. Larissa-Mulher.

LariCine.

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