The Power of the Dog

The Power of the Dog ★★★★★

Jane Campion traz ao faroeste suas histórias fortes sobre a latência do desejo

Como os faroestes tratam essencialmente da conquista do Oeste na formação dos Estados Unidos, esses filmes sempre foram uma oportunidade para falar sobre civilização e barbárie, afinal vem daí uma construção consciente da identidade nacional e do imaginário americano. Nela, o avanço dos colonos pioneiros em direção à Califórnia e ao México “selvagem” se justifica como um projeto expansionista, de superioridade moral, quase como um chamado divino.

Ataque dos Cães já se ambienta nos anos 1920, portanto nos é muito mais contemporâneo do que os faroestes clássicos ambientados no século XIX. Ainda assim, a trama baseada no romance de 1967 de Thomas Savage se coloca para o espectador como um embate civilizatório: de um lado, temos George (Jesse Plemons), homem de gestos contidos e poucas palavras, do outro há o viril e impetuoso Phil (Benedict Cumberbatch). George e Phil são irmãos, responsáveis por administrar a fazenda dos pais em Montana, e o que define esse embate são suas visões distintas e veladas sobre a vida, os negócios, o passado e os afetos.

Acontece que o maniqueísmo entre o colonizador justo e o bom selvagem já não valia muito no século XIX, e certamente não cabe mais em 1920; todo o faroeste revisionista no fundo empreende a desconstrução desse maniqueísmo. O roteiro adaptado por Jane Campion, diretora do filme, usa apenas a dicotomia visível entre a sensatez de George e a tosquice de Phil como ponto de largada - e é a partir dela que sugere então um suspense com reviravoltas que podem surpreender justamente por pegar o espectador no contrapé do preconceito e das enganosas primeiras impressões.

Como é esperado de um trabalho de Jane Campion, essa narrativa se dá como se o filme fosse até perfumado, tal é o compromisso que a cineasta sempre tem com as experiências sensoriais, nos planos-detalhes de objetos, mãos e feições, sempre pegos em gestos que não escapam à atenção da câmera, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam. Nesse sentido, Ataque dos Cães lembra um pouco o Cinzas no Paraíso (1978) de Terrence Malick, que afinal nunca esteve tão na moda emular. A poesia do bucólico em Campion e Malick parece em sintonia, num primeiro olhar.

Mas assim como as torcidas sugeridas no início do filme podem ser muito elusivas, convém não tomar a sensibilidade de Jane Campion como alienação. A grande força do seu cinema sempre esteve na latência do desejo - que pulsa frequentemente de forma violenta mas sem negar ou se opor à beleza das coisas - e Ataque dos Cães aos poucos se revela um filme franco sobre desejo, sobre o controle violento do homem sobre a (sua) natureza, e sobre como a vida e a História tomam forma a partir dessa manifestação dos nossos desejos. Se há traços do sagrado neste faroeste, como há também em Cinzas no Paraíso, o que se espera dos homens é que o maculem - nisso reside sua tragédia e também seu destino. Ambos o selvagem e o civilizado somos nós.

Ator que ainda precisa se provar entre os grandes da sua profissão, Benedict Cumberbatch nunca foi tão desafiado quanto aqui, porque é em Phil que se concentra toda essa dimensão épica do comentário sobre o desejo, a tragédia e a violência. No passado, talvez fosse um papel ideal para um Marlon Brando, escrito por um Tennessee Williams, uma investigação de arqueologia para encontrar no coração as vulnerabilidades dos machões americanos. Ataque dos Cães não está distante de First Cow e são dois enormes faroestes feitos e lançados por mulheres em 2021 para analisar os EUA de um ponto de vista moral, mas se o First Cow de Kelly Reichardt é desafetado como um bom filme indie, Campion está em busca do relato retumbante, e a carreira de Cumberbatch tende a ser redefinida a partir deste filme, para o bem ou para o mal.