Private Desert

Private Desert ★★★★

Filme escolhido para representar o país no Oscar é um convite à sensibilização

Há cerca de um mês, a escritora Alice Gribbin abriu uma coluna no Substack e o seu texto inaugural, intitulado “The Empathy Racket” (“o esquema da empatia”, em tradução livre), é um ensaio fundamental para compreender a noção, cada vez menos questionada entre nós, de que a arte deve ser vista primordialmente pelo viés da empatia. Em tempos de epidemia de neuroses e crises de representação política, caberia à arte curar os corações e reparar politicamente o nosso espírito coletivo.

Na opinião de Gribbin, atribuir funções e uma hierarquia à resposta que a arte deve gerar nas pessoas - colocando afetos como o assombro e a ojeriza abaixo da nobreza da empatia - domestica o potencial da arte. Eu não pude evitar pensar nesse texto (que está disponível aqui, em inglês) depois de ver Deserto Particular, porque o drama romântico do diretor Aly Muritiba, que representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2022, se encontra justamente nessa encruzilhada de intenções.

Em entrevista ao Omelete, Muritiba conta que, durante os anos em que batalhou financiamento para Deserto Particular, o roteiro mudou radicalmente: o que começou como um drama mais pesado foi se tornando com o tempo uma história sobre um encontro, influenciada pelo fato de Muritiba ter se apaixonado em 2018. No filme, um policial do Paraná (vivido por Antonio Saboia), suspenso da Força depois de um episódio de violência, ocupa seu tempo livre trocando mensagens com uma mulher da Bahia; quando ela deixa de responder, o policial decide cruzar o país para conhecê-la pessoalmente.

É evidentemente forte e simbólica essa premissa porque, à parte os motivos íntimos do cineasta, o Brasil cindido de 2021 necessita urgentemente de reparação nas suas diferenças: o Sul e o Norte, o masculino e o feminino, o conservador e o progressista, o velho e o novo. Nascido na Bahia e residente no Paraná, Muritiba faz no filme o movimento inverso ao que realizara fora das telas, e, ao traçar esse percurso de Curitiba até Juazeiro, Deserto Particular se filia a uma tradição importante do road movie no Brasil, ao mesmo tempo em que atende a esse chamado da pacificação nacional.

Esse é o lado da empatia, que nos convida a apurar os sentidos em nome da alteridade. Só vamos voltar a perceber o outro quando reaprendermos a olhar, e Deserto Particular é muito bem filmado nesse aspecto, com uma composição de planos pensada para valorizar os entornos e atiçar a sensibilidade do espectador para percebê-los - seja quando uma personagem importante se posiciona desfocada no fundo, seja quando a paisagem (como a represa de Sobradinho, lastro importante no filme não apenas no aspecto humano mas também na sua dimensão econômica) se presta a metáfora. O filme opera nessa “convocação para o sensível”, o que está bastante claro nas escolhas de canções populares como “Total Eclipse of the Heart”, convite à catarse de karaokê.

Deserto Particular já parece mais insatisfatório quando alguns potenciais de conflito são amenizados em nome da conformação. Muritiba faz a escolha - que não deixa de ter seu interesse - pelo potencial velado de violência, sintetizado na presença física de Saboia. Depois de interpretar o motoqueiro sudestino de Bacurau, o ator parece ter se esmerado na academia para viver esse policial deslocado, e o contraste do seu tamanho marombado contra o resto do elenco é a forma que Muritiba encontra para insinuar que o protagonista pode, a qualquer momento, com seu braço direito engessado, revelar um temperamento explosivo.

Acontece que na dramaturgia, para as coisas acontecerem, muito do que é velado precisa deixar de sê-lo, e se manifestar de fato. Deserto Particular não abre mão dos conflitos, nem de resoluções de impacto, mas parece um filme que está sempre no limite de fazer suas escolhas pautado pelas boas intenções. Quando trata de situações de enfrentamento - que podem render conclusões várias, entre elas a violenta - muitas vezes a saída é apaziguada no constrangimento, no silêncio apartado, no malentendido.

Isso não tira os méritos de Deserto Particular e Aly Muritiba se mostra não apenas um esteta mas também um ótimo diretor de atores. Todo esse potencial adormecido de conflito se reverte, nos encontros dos personagens, em uma carnalidade que ganha a tela de forma intensa e autêntica. (Aqui estou tentando driblar os spoilers, porque é difícil falar desse suspense de catfish sem revelar demais.) De qualquer forma, fazer arte em 2021 tem muitas dificuldades, e sem dúvida a tentação da soberania da empatia é uma delas, quando se espera que a arte compense os males do mundo e reponha os amores que perdemos.