Armageddon Time

Armageddon Time ★★★★★

James Gray dá ao seu pequeno relato autobiográfico uma dimensão moral maior

Logo encerrada a sessão de imprensa de Armageddon Time, uma ou duas pessoas manifestaram seu descontentamento em relação ao novo filme de James Gray, porque o que julgavam ser a história de formação de um menino prodígio não se converteu ao fim numa espécie de Uma Mente Brilhante (2001) mirim. A expectativa realmente é a mãe das decepções, especialmente se você esperava que Gray contasse, algum dia, uma história que fosse de triunfalismo e não de conformação.

Armageddon Time se posiciona especificamente contra uma certa mania de triunfo que nublou o cenário político e cultural dos EUA a partir das bravatas de Donald Trump. A família do ex-presidente aparece no filme, que parte das memórias de James Gray no começo dos anos 1980 em Nova York para contar a infância de Paul Graff (Banks Repeta), que está indo mal na escola pública e, graças a um esforço financeiro dos seus avós, imigrantes judeus sobreviventes do Holocausto, é transferido para um colégio particular de elite.

O colégio da ficção espelha a Kew-Forest School, que fica no Queens; lá, quando cursava o ensino fundamental, Gray lembra de ter assistido a um discurso de Maryanne Trump, a irmã de Donald, sobre a relação do trabalho duro com o sucesso. (Tanto Maryanne quanto Donald cursaram o fundamental na Kew-Forest.) O discurso está no filme, Maryanne é interpretada nessa única cena por Jessica Chastain, mas de resto os Trump se prestam em Armageddon Time apenas a servir de avatares do pensamento predatório dos anos Reagan - presidente que fez do medo sua plataforma e em discurso à nação alertava que os americanos poderiam testemunhar em vida o juízo final, daí o nome do filme.

Gray usa esse estado de alarmismo com desenvoltura neste seu primeiro filme de formação juvenil, porque afinal a infância se presta naturalmente a esse humor: é a época em que somos moldados para o futuro, ao mesmo tempo em que tudo parece definitivo, dramático, incontornável. Fazer das figuras coadjuvantes avatares de certos perfis sociais também tem a ver com um olhar simplório da infância: o pai de Paul representa as frustrações do proletariado, encarnado no sempre introspectivo Jeremy Strong; o amigo adolescente negro intrepretado por Jaylin Webb tem o sorriso melancólico daqueles fadados ao desfavor; o avô imigrante ganha na figura de Anthony Hopkins a autoridade e os afetos que o papel pede, dado que carrega no corpo o peso do mundo e da História.

Na escalação desse elenco e na definição desses perfis de personagens, que beiram o estereotípico de forma consciente (pois assumem que o estereótipo é uma forma de condensar e otimizar verdades dramáticas), Gray está em busca de um cinema do essencial. A maneira como o filme prescinde de excessos visuais e de roteiro para dar conta de um conto moral, socialmente carregado, aproximaria Armageddon Time do neorrealismo italiano, não fosse Gray tão afeito à fotografia barroca, bem marcada nos contrastes de sombra, que vemos nos seus filmes novaiorquinos dos anos 2000. Ainda assim, este seu oitavo longa-metragem poderia ser chamado de austero. O máximo de “intervenção” que Gray se permite são uns pares de câmeras lentas devastadoras, desacelerando os clímaxes e as explosões de temperamento, para dar à violência um grau de reflexão e também para lembrar que, na memória da infância, esses momentos definidores de uma vida se sedimentam também com lentidão.

A austeridade e o essencialismo não significam que o filme trata o menino Paul implacavelmente. Na verdade, o protagonista interpretado com notável energia por Repeta parece até protegido do mundo, na medida em que Armageddon Time assume uma operação quase fabular na forma como promove encontros; o amigo negro e o avô reaparecem nos dias de Paul como se fossem seres imaginários (não por acaso, apenas Paul é capaz de enxergar o amigo quando ele se esconde na cabana do jardim da família). Essa lógica teatral, que aqui está intimamente ligada à tradição judaica das parábolas, serve para nos proteger da dureza de uma realidade determinista, que no mais alcançará Paul em algum momento do fim da infância.

Vagar e pertencer

Dizer que James Gray é um cineasta da conformação não significa dizer que seus filmes sejam conformistas. Paul atravessa provações com a mesma dignidade com que os adultos novaiorquinos concebidos por Gray encararam ao longo dos anos o peso da tradição familiar, a sombra do pai e as consequências do desamor. Assim como o Joaquin Phoenix de Os Donos da Noite (2007), Paul começa a sua história com uma transgressão e termina encontrando na penitência uma certa altivez - a diferença é que o menino de Armageddon Time ainda tem a vida inteira pela frente. Esse é o triunfo possível.

Os Donos da Noite continua sendo o melhor filme de Gray, famoso pela perseguição de carro na chuva, momento de salto importante no arco do personagem de Phoenix. Em Armageddon Time, os automóveis também são mais do que objetos de cena, são verdadeiros meio-ambientes que ditam dinâmicas claustrofóbicas de hierarquia familiar e social. Numa cena de funeral, Paul é impedido por seu pai de sair do carro, e é de lá que precisa assistir ao enterro. De modo similar, no plano final de Fuga para Odessa (1994), sentado ao volante e soterrado pelo luto, Tim Roth faz do seu Cadillac um mausoléu pessoal.

Em seu livro Por que Escrever?, Philip Roth conta numa entrevista de 1974 que na adolescência seus momentos mais felizes aconteciam em carros estacionados em que ele e seus amigos conversavam de tudo, “dois, três, quatro de nós naquela pequena cápsula de aço do tamanho de uma cela de prisão”, lembra Roth, provavelmente o mais ilustre escritor americano associado com sua origem judia. Essa ideia do automóvel como o último claustro e ao mesmo tempo como um espaço de liberdade, que permite movimentação para além do bairro, da igreja e da família, está impregnada no cinema de Gray e o conecta às noções que Roth faz dos dilemas do judaísmo. É a possibilidade do movimento (presente na diáspora, no desenraizamento) e ao mesmo tempo é a cruz de carregar sempre consigo a consciência moral do mundo.

Obviamente, por seu teor autobiográfico e por abordar textualmente a memória do Holocausto, Armageddon Time se mostra o filme mais judaico de James Gray. Em retrospecto, porém, colocando em perspectiva essa concepção que Roth faz dos espaços de convívio dos judeus americanos, não é difícil compreender que toda a ideia que Gray faz das trajetórias de seus personagens em Nova York - em táxis, no metrô, em carros, correndo a pé nos trilhos - envolve um dilema profundamente judaico entre o vagar e o pertencer. Vagar significa se enxergar nos outros, flertar com a permissividade e os desejos do mundo gói (o que Paul saboreia tanto na música negra quanto, com gosto amargo, no espelho da feiúra que a escola rica oferece). Pertencer significa ser virtuoso, honrar seu nome, aceitar em silêncio a palavra e a mão do pai.

Quando frustra as pessoas que queriam ver Paul crescer um artista transgressor e de renome, Armageddon Time pode parecer um filme conformista, mas é nos deslocamentos turbulentos pela casa, pela escola e pela cidade que o personagem tateia seu lugar na coletividade, sonhando quem sabe alcançar as alturas, como seu pequeno foguete de brinquedo. Paul não está aprendendo a ser artista, está aprendendo a ser judeu. James Gray oferece um filme de formação absolutamente tradicional - que outras histórias de adolescência não envolvem matar aulas e desbravar a cidade de tarde? - mas dentro disso cabe o mundo inteiro.

No mais, como aprendemos desde sempre nos filmes de moldura classicista do diretor, e aprendemos de novo em Armageddon Time quando Paul reproduz uma pintura famosa num exercício em aula, a originalidade (e a ânsia de triunfo que ela carrega) pode ser uma coisa muito superestimada.

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