The Exorcist

The Exorcist ★★★★★

Para falar da minha relação espectatorial com O Exorcista eu preciso recorrer a uma comparação com outro filme que assisti neste ano: Céline (1992), de Jean-Claude Brisseau — que vem se alicerçando na minha mente como o meu favorito da vida. Mas antes de Céline, um relato sobre minha relação com Cinema. Como alguém que possui uma ligação pessoal com a fé e enxerga o Cinema de maneira menos materialista, minhas obras favoritas são aquelas que fazem o invisível se tornar visível; que fazem o intangível ser sentido através da mise-en-scène; que são mediadoras de um contato humano com uma experiência transcedental; capazes de gerar um estado hipnótico que assemelha a experiência do 'quase-sono' (não gosto de pensar o Cinema como um "sonho", pois ele me assemelha mais àqueles prévios minutos antes de dormir em que apesar de você estar acordado, parece que você não está no controle de si mesmo). Tenho noção de que provavelmente ao longo de minha vida eu encontrarei um filme que se encaixa, senão em todas, pelo menos em algumas dessas características no máximo umas 50 vezes (e a primeira assistida, o primeiro contato, será sempre irreproduzível e único), já tendo gastado parte dessa experiência pelo menos algumas vezes com filmes como Sunrise; Partie de campagne; Francesco, giullare di Dio; Il vangelo secondo Matteo; Vertigo; Persona; Aguirre, der Zorn Gottes; Suspiria; Apocalypse Now; The Man in the Moon; Céline; New Rose Hotel; O Viajante; Pulse; Mullholand Drive; Signs; Le Monde Vivant; Miami Vice (apenas um rol exemplificativo e não exaustivo).

De todos esses, a experiência com Céline me trouxe uma sensação que provavelmente jamais será entendida (ou melhor, será olhada de maneira cínica, zombadora e cafona) por quem não tem fé, que é a de ter sentido pela primeira vez através da arte um contato com o Divino. Se com filmes como Vertigo, Persona e Suspiria eu me senti entrando em contato com o 'Eu' mais profundo e adormecido de minha psique, com Céline foi como olhar para 'Deus' (ler Deus no sentido de: 'manifestação do Bem' e não como um velho barbudo). É uma frase fortíssima de se dizer, mas o que Brisseau realizou foi fazer Sua presença ser sentida através da mise-en-scène. Ele está em tudo, está entranhado e enraízado em cada movimento de câmera, em cada jogo de luz, em cada aparição de Isabelle Pasco, em cada montagem que joga com o campo e o contracampo, em cada sugestão do extracampo ou no simples ato de posicionar a câmera para um espaço vazio.

E o que esse grande texto prolixo, pessoal e emocional tem a ver com O Exorcista? Absolutamente tudo que acabei de usar para descrever minha experiência com Céline é o que senti com O Exorcista, mas com uma diferença fundamental: se Brisseau mediou um contato de seu espectador com Deus, Friedkin mediou com o Mal (eu prefiro não usar o termo antagônico "Diabo", pois até eu acho isso meio cafona). Em nenhum filme de terror que assisti até aqui (posso dizer que ainda me faltam muitos) eu senti o Mal como uma manifestação tão gritante em uma mise-en-scène. Ele está presente em cada zoom-in, que força o olhar a se ajustar para identificar algum objeto de foco, mas que jamais é visto; em cada movimento de câmera que persegue os personagens como uma maldição; em cada corte seco ou dessincronia entre som e imagem que desestabilizam o ambiente; em cada aparição maldita e não solicitada daquela criatura por um milésimo de segundo, como se tivesse tentando entrar em nosso subconsciente de uma maneira sorrateira; em cada plano que contêm apenas o nada (janelas, ruas, móveis), tudo é terrivelmente carregado por esse mal estar da não-presença.