The Man Who Copied

The Man Who Copied

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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Na cena em que Silvia dá o livro de sonetos pra André, explicando aquele emaranhado de palavras obsoletas, ela diz no último estrofe lido que os filhos são a forma de ganhar do tempo. De enganar a morte. É curioso, visto que a própria personagem, é o eco de sua mãe, se encontrando por destino na mesma posição que a mesma, presa pelo vínculo da moralidade com seu "pai", a espera de sair de toda aquela opressão da rotina, a opressão do tempo, para o Rio, com o seu artista.

A história é um libertar das convenções e da prisão que é a vida média secular. Como sucessor em montagem (e em inspiração, de outro filme com cópias, e com começo parecido, Clube da Luta) não é de se estranhar. A prisão de André, de Cardoso, de Marinês e de Silvia, é a rotina que não lhes permite sair daquele ciclo (mais cruel pra alguns que pra outros), mas o símbolo dessa prisão, é o dinheiro. Algo tão materialista, tão subjetivo. "Dinheiro é só um papel que fizeram acreditar que vale alguma coisa, se ninguém acreditar não vale nada". Partindo desse ponto, nada é fantasioso ou imoral, para atingir essa liberdade. De falsificar o que em si já não tem um valor intrínseco, a vingar os anos e a inocência perdida, desde a mãe, a filha nas mãos daquele "escroto".

Apenas a vida é original. Algo que só pode ser dito nessa geração. Imagine se poderia ser feito um filme em que um "pé rapado" passasse o chapéu no seu chefe, no banco, roubasse um carro forte, um traficante e ainda ganhasse na loteria, poderia ser feito isso na época de Medina? Uma "menina prendada" fugir com um assaltante, matar o pai estuprador e tudo isso não ser nenhum momento de queda em sua narrativa, mas sim a redenção? Acredito que é a isso que o filme se refere. É o retrato de uma geração ressignificando sua própria passagem. É um filme otimista, mostra que apesar do massacrante lema repetido da ordem comum moderna (as frases automáticas de trabalho), cada vez mais vai ficando mais ralo o valor a que se dá a moralidade apática e opressiva do capital. As convenções, que faziam a manutenção desse sistema, que tiravam a atenção da injustiça, agora, analisadas friamente pelo trabalhador procedural. A rotina não será perdoada. E será feito o necessário, pra se conseguir o suficiente, pra se viver com liberdade. Não existe ganância nos inúmeros golpes, existe o desejo de viver melhor.

Saindo do sentido, a montagem é maravilhosa, acho pertinente o começo um pouco maçante, e necessário pra se entender onde o protagonista está. A brincadeira de imagem com a janela da casa da Silvia é ótima, a cena das cortinas chinesas, em que André descobre mais do que imaginava da vida dela apesar de terrível pelo conteúdo é sublime pela forma. Uma fresta que vai alargando mostrando mais da história. A atuação de Lázaro é sincera, demonstra nos seus trejeitos a sujeição contida e rebelde ao poder maior. É orgânico, me lembra uns 2 ou 3 parentes indefinidos, passa realidade.

O filme termina mostrando mais um pouco do oculto, o oculto de Silvia, que encerra a história muito menos docilmente, mostrando a sua parte do esforço, encerrando o ciclo e limando as partes não importantes. O que fica na carta, é o afeto, a memória, a vida. As cópias são passadas adiante.