Distant

Distant

Numa pesquisa superficial, “distância” é definida como o espaço entre dois corpos. Cada corpo, por sua vez, carrega suas características, seus gostos, suas diferenças. Mahmut é um homem desiludido: não gosta mais de fotografar (diz que “a fotografia já era”), nem de assistir aos filmes daquele que um dia foi sua inspiração, Andrei Tarkovsky. Ele já anuncia sua morte antes mesmo que ela ocorra, já que sua existência agora se tornou nula, por não sentir atração a nada que um dia lhe fez completo. Sua casa, tornou-se, o útero de sua mãe, quente, cômodo, para sair apenas quando morrer.

Já Yusuf conhece o espaço externo completamente, através de suas caminhadas, de seu desejo de se tornar marinheiro (ainda que frustrado), de se aproximar de uma mulher cujos olhos acompanham com interesse. Essa dicotomia é brilhantemente representada em um único plano na metade do longa-metragem. Yusuf está no escritório de Mahmut, observando a rua. Ele abre a porta da varanda e caminha para o lado de fora. Mahmut, por sua vez, levanta-se da cadeira e caminha até onde Yusuf estava. Observa por alguns segundos, até fechar a porta da varanda, bloqueando qualquer contato externo com o interior.

Contudo, essa não é a única “distância” presente no filme de Nuri Bilge Ceylan. A câmera comandada pelo diretor está distante dos personagens, logo, nós, espectadores, estamos duas vezes mais distantes deles. Não me refiro aqui apenas ao uso dos planos abertos, misturando o homem à paisagem que ele interage, mas também ao fato da objetiva nunca, de fato, acompanhar seus personagens. São eles que se aproximam e se distanciam, até a última cena, onde, pela primeira vez, depois de acompanharmos os dilemas desses personagens, podemos, finalmente, nos aproximar deles, entendê-los um pouco.

Não tira a nossa sensação de impotência, mas, como menciona uma espectadora numa carta enviada a Tarkovsky, “a tela se amplia, e o mundo, que antes se encontrava separado de nós, passa a fazer parte de nós [...]”.

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