Portrait of a Lady on Fire

Portrait of a Lady on Fire ★★★★★

“Sua mãe te deixará sair sozinha amanhã. Você será livre.”

“Estar sozinha é ser livre?”

Essa é minha segunda review do filme e primeira que escrevo em português. 

Retrato de uma jovem em chamas conta a história de amor entre Marianne, uma pintora, e Héloïse, uma jovem que recusa-se a ser pintada para que seu retrato não chegue nas mãos de seu provável noivo, um italiano sobre o qual ela possui poucas informações. 

Esse filme me construiu. 

A honestidade que ele transmite quanto à precisão histórica dos detalhes é impressionante. Sendo uma grande apaixonada por figurinos em filmes de época, tenho uma mínima noção sobre as roupas através das décadas do século XVIII (1770 precisamente). Nunca vi vestidos sendo retratados de maneira tão atentiva e cuidadosa, tomando em conta todos os fatores sociais e regionais. Dou como exemplo a parte na qual Marianne tira o vestido verde com a chegada de Héloïse à porta. O espectador vê cada camada contida naquele visual, junto com os lacetes e a construção da peça. 
A cena na qual a mãe de Héloïse entrega uma carta a Marianne mostra a utilização dos bolsos escondidos, o que não é muito apreciado em filmes de época no geral. Os bolsos que remetem àquele tempo costumavam ter alturas enormes, e suportavam muitos objetos.
Os véus usados para protegerem-se do vento, os corpetes, as roupas de noite, as cores e até mesmo a textura do tecido... tudo se encontra de forma delicadamente pensada, e isso situa o espectador na linha temporal na qual a trama toma lugar. 

O outro aspecto que me chamou atenção foi a construção genial dos diálogos do filme. Não há frase sem resposta, e todas respostas são aparadas para caberem perfeitamente na frase anterior a elas.

“Eu não sabia que você era uma crítica de arte.“

”E eu não sabia que você era pintora.”

Todas as palavras são sabiamente postas juntas, e as conversas formam uma sorte de música cheia de gênio. Não é para qualquer um. 

O que me fascinou enormemente foi também a adição do tema aborto na narrativa. Essa é uma prática extremamente comum e que, apesar da sua pouca representatividade na arte, sempre foi executada, e nada é mais justo do que expô-la de uma forma séria, sem escrúpulos e responsável. 

O que eu mais gosto em Céline é que nunca tiramos desse filme a impressão de um feminismo forçado. Temos o domínio feminino de forma natural e bem feita, sendo todas as integrantes da equipe extremamente talentosas e contribuintes com cada parte da obra para que ela tenha um resultado à altura. E foi isso que aconteceu. 

A cena na qual ouvimos o conto de Orfeu e o debate que segue é magnífica. Eu, enquanto espectadora, pensava o quanto eu daria apenas para ouvir horas daquela conversa fundamentada, constituída de opiniões daquelas mulheres que se uniram tão bem num sentimento de (e, acredite, a utilização do lema do país saiu até sem querer) igualdade, liberdade e fraternidade. 
Tudo isso é paulatinamente construído para dar sentido à cena na qual Marianne diz adeus a Héloïse, pensando nunca mais vê-la. 

Nada é imposto, tudo é mostrado fresco e cru. Tudo é natural e simples. Tudo é poético e artístico, mesmo parecendo transcrições da realidade. 

Celine, obrigada demais por Retrato de uma jovem em chamas.

Camila liked these reviews

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